Por Giovana Schneider
No calendário oficial do Espírito Santo, a segunda-feira que sucede a oitava de Páscoa é reservada à celebração de Nossa Senhora da Penha. Enquanto milhares de fiéis sobem as ladeiras de pedra do Convento em Vila Velha, um fenômeno singular e profundo acontece na zona rural de Cariacica. Em Roda D’água, o sagrado e o profano se encontram no Carnaval de Congo de Máscaras, uma manifestação que prova que a cultura popular é, antes de tudo, uma ferramenta de sobrevivência.
A Fé
que Rompeu Grades
A gênese desta festa remonta a mais de um século, em um Brasil onde a fé era permitida, mas o acesso aos seus altares era seletivo. Impedidos de participar das festividades oficiais da padroeira devido à cor de sua pele e sua condição social, os negros escravizados e libertos da região de Roda D’água não aceitaram o silêncio. Se não podiam ir ao Convento, a santa viria até eles — através do som dos tambores e da cadência das ¹casacas.
O que
hoje chamamos de "Carnaval de Máscaras" nasceu como uma estratégia de
segurança. Para celebrar sem serem identificados e punidos pelos seus senhores,
os brincantes ocultavam seus rostos. O anonimato era a fronteira entre a
liberdade de cultuar seus ancestrais e o risco da retaliação.
A Poética de João Bananeira
No centro dessa tradição surge a figura enigmática de João Bananeira. Diz a lenda que um homem, decidido a participar da festa sem ser reconhecido, cobriu-se inteiramente com folhas secas de bananeira e uma máscara de papel machê. Ele não era mais um indivíduo; ele era a própria natureza, o mistério e a coletividade.
O João
Bananeira é a síntese da criatividade brasileira: transformar o descarte da
terra (a palha seca) e o papel moldado em um ícone de resistência. Até hoje, a
tradição exige que o folião não revele sua identidade. Sob a máscara, o mestre
de congo e o jovem aprendiz tornam-se iguais, unidos pelo ritmo que ecoa nas
montanhas de Cariacica.
Sincretismo
e Identidade
O evento é um exemplo vivo de sincretismo. A procissão, que começa com uma missa regada a cânticos de congo, deságua em uma explosão de cores e sons. Há uma conexão espiritual profunda: os moradores locais sustentam que, no dia de Roda D’água, a chuva sempre cai. Para eles, não é um inconveniente meteorológico, mas o "banho de Nossa Senhora", uma benção que purifica a terra e os foliões.
As
bandas de congo, com seus tambores feitos de troncos e suas ¹casacas esculpidas,
ditam o pulso do dia. É uma música que não se ouve apenas com os ouvidos, mas
com os pés, que batem no chão reafirmando a posse daquele território.
Um
Patrimônio que Resiste
Reconhecido como Patrimônio Imaterial de Cariacica, o Carnaval de Máscaras de Roda D’água é mais do que um evento turístico; é um documento histórico vivo. Ele nos lembra que a cultura capixaba é feita de camadas, de lutas silenciosas e de belezas que nasceram da necessidade de dizer: "Nós estamos aqui".
Preservar
essa festa é garantir que a história de João Bananeira continue a ser contada —
não como um conto de fadas, mas como a prova de que a liberdade, quando
impedida de caminhar a descoberto, encontra nas máscaras e na palha o seu
caminho para a luz.
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